segunda-feira, Outubro 08, 2007

Finisterra.


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Dia 145, 7871Km. Kathmandu, Nepal.
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Quando Patchi se despe totalmente e entra no mar de Finisterra dizendo: "voy hacer esto a los 60 porque no se si lo podre hacer a los 61", fiquei-me pelo registo da piada, nao percebendo a profundidade da licao.
Exactamente um ano volvido (aconteceu a 5 de Outubro de 2006), recordo o lugar onde terminei uma caminhada de 30 dias, com a mochila no lugar que lhe e devido, na companhia de Patchi, Joseba (ambos bascos) e Pera (catalao).
Agora percebo que Patchi, muito mais vivido, clarificava e descrevia um conselho: o de viver o momento. A felicidade, em forma de projecto, tem um valor de risco demasiado elevado.
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Ha 143 dias atras, uma particular arvore, marcando o inicio do bosque nas traseiras de uma bomba de gasolina, nas proximidades do aeroporto de Malpensa (Milao), abrigava a estreia de uma tenda.
Nao era o unico objecto cheirando a novo. Os alforges tinham ainda a sua cor original: um vermelho vivo e brilhante, por degradar ainda nas futuras horas de longa exposicao solar.
Dentro de essa tenda, couberam todos os objectos, um corpo e uma cabeca cheia de duvidas e receios iniciais.
O ponto de partida da viagem estava ali finalmente definido. De repente, depois de meses no ambiente seguro e nao desafiante de uma rotina e necessario, num curto espaco de tempo (porque a noite se aproxima rapidamente depois do trem de aterragem pisar solo italiano), libertar a bicicleta da clausura cartonada, repor a sua condicao ciclavel, adorna-la dos necessarios vultos e procurar guarida (comecando, de raiz, por uma das principais regras da vida cicloturistica: poupar nas dormidas).
Estava em Milao, queria chegar a Kathmandu... nao cobrindo a totalidade do trajecto por terra mas, para comecar, tentar chegar a Istambul.
Um joelho, recentemente lesionado, nao favorecia nada a positividade do augurio...
Bom... na vantagem de dispor de tempo, pude aplicar-lhe liberdade numa medida com poucas restricoes. Pude viver cada momento, recolhendo e seguindo sugestoes de visita; gozando cada lugar no minimo que lhe entendi corresponder.
Assim, dupliquei a distancia que previ pedalar e, favorecido e abencoado pelo destino, acumulei encontros e paisagens de grande beleza.
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Entre Sauraha e Kathmandu encontro-me absorvido nas montanhas de Terai. Estes dois ultimos dias em bicicleta resumem a essencia de toda a viagem: paisagens magnificas, exigencia fisica q.b., encontros muito gratificantes, tranquilidade na medida desejada, a forte e relaxada confianca no imprevisto sempre a revelar-se uma boa opcao...
Territorio muito bonito. Intensamente coberto de verde; com desniveis prolongados.
A noite encontra-me ainda na montanha e dou leito ao sono no alpendre de uma casa. Como me senti bem... Reconheci o privilegio de a ultima noite "de estrada" poder ser assim vivida, isento de receios, sob o ceu estrelado onde tocavam os cumes que, nas horas de luz, me foram proporcionando as melhores vistas.
O sono nao se encerra em quatro paredes e o saco-cama toca as rodas do meu heroico veiculo expedicionario; a temperatura e agradavel; estou reconfortado por uma refeicao na aldeia anterior, acompanhado de varias criancas e uma moca com pretensoes de casamento (!); as curvas da montanha desencorajam o trafego nocturno dos ruidosos camioes... que mais posso pedir?
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Montanhas de Terai.

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Mas... voltando atras.
Saindo de Pokhara, a meteorologia concede-me as primeiras horas de uma manha em que as nuvens continuam motivadas a tapar o sol. Este ultimo, com a forca que lhe e caracteristica, nao tarda muito a inverter as posicoes e, na ultima colher de muesli com curd (iogurte) do pequeno-almoco, ja pude prever um ambiente bem mais seco que o dos dias anteriores.
Nesta manha, finalmente, apreciei o relevo do conjunto montanhoso do Annapurna. O cume do Machhapuchhare (Fish Tail) e particularmente impressionante. Tinha vontade de pedalar mas ao mesmo tempo lamentava nao me demorar mais, aproximando-me de ainda melhores vistas.
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Cume do Machhapuchhare.



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Um marco, a saida de Pokhara, assinala Kathmandu a uma distancia de 195Km.
E a primeira vez que vejo este nome gravado numa indicacao rodoviaria.
Nao tencionava tomar esta ligacao de forma directa. Ainda queria inverter para sul, a caminho do Royal Chitwan National Park.
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Depois de Pokhara, a 195Km de Kathmandu.

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O dia foi pouco exigente ao nivel fisico e, mais uma vez, muito compensador ao nivel paisagistico.
Continuo a apreciar muito a simpatia do povo nepales, a privacidade que me reservam e a natureza espontanea e cuidada do seu pais.
Atravesso varias povoacoes. Sempre com o caos rodoviario caracteristico desta parte do mundo. Os transportes publicos nao conhecem limites na lotacao dos passageiros e vendedores de fruta negoceiam nas suas janelas.
A cerca de 100Km do Lakeside de Pokhara dou o dia por terminado, em Mugling.
A povoacao nao e particularmente atraente. Representa sobretudo uma oferta logistica no cruzamento de duas estradas principais. Cada porta e um restaurante. Muitos destes estabelecimentos oferecem tambem alojamento. Nao e um lugar para turistas, destina-se mais aos, locais, profissionais do volante. Tenho alguma dificuldade em fazer-me entender.
Por fim, logro repor a energia dispendida num prato de momos (empadas tibetanas) de galinha e encontrar um quarto onde aguardar que os olhos deixem de se concentrar nas linhas redigidas por Jack London para darem lugar a outros caminhos do inconsciente.
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Mugling.

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No dia seguinte, a 95Km de Kathmandu, abandono a Prithvi Highway (uma das principais estradas do Nepal), tomando o sul, ao longo do rio Trisuli.
Mais uma vez, o cenario e arrebatador nesta sub-tropical regiao de Terai.
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Rio Trisuli.


Faixas para colocar no interior da cabine dos camioes,
no topo do para-brisas.


Entre Mugling e Sauraha.

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Chego a Sauraha (65Km) a horas de almoco.
Nao o sendo tanto a zona central, com evidentes marcas de orientacao turistica (dada a proximidade do Parque Nacional), todo o entorno desta vila e marcadamente rural. Quase todas as construcoes se encontram no modo tradicional: finas paredes de barro agregado a uma estrutura de canas e telhados em colmo.
O gado circula livremente pelas ruas: cabras, vacas e bufalos. Elefantes tambem se encontram, muitos; em estabulos construidos a sua dimensao ou caminhando de forma pesada mas elegante, transportando o seu tratador ou um grupo de turistas encaixado numa gaiola de madeira.
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Sauraha e proximidades.

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Instalo-me numa das casas de barro e colmo que circundam o jardim do lodge "Bull Bull's Nest". Todas as comodidades, com o bonus da riqueza de experimentar as propriedades da arquitectura tradicional e o trato afavel e genuino, a boa maneira nepalesa, por 150 rupias (1 euro = 90 rupias).
Sauraha encontra-se na margem do rio Rapti. Cruzando as suas aguas, encontra-se o limite norte do Royal Chitwan National Park.
Este Parque, com 932Km2, foi proclamado em 1973 como forma de travar a alarmante rapidez com que diminuia o numero de vida selvagem nesta regiao de Terai, particularmente rinocerontes e tigres, devido a perda de habitat natural pelo avanco das povoacoes.
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Nao e permitido entrar nos limites do parque de forma independente. Pelo risco do encontro com o numero abundante de animais (aproximadamente 465 rinocerontes, 80 tigres, 50 outras especies de mamiferos que incluem ursos e leopardos, 450 tipos diferentes de aves, duas especies diferentes de crocodilos...) e como forma de controlar a preservacao da natureza e o respeito pelas regras da visita.
Num dos muitos operadores com guias credenciados pelo Parque (para tal necessitam de 4 anos de formacao) marco uma caminhada de dois dias.
Sera um trajecto circular, com dormida numa outra aldeia.
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A hora marcada (06:00) sento-me a mesa para o pequeno-almoco com Man. Rapidamente me diz:
-Come, come inside. Wild elephant!
Entramos na construcao de zinco e o seu proprietario apressa-se a fechar as portadas. Atraves de uma frecha vemos o enorme animal que todas as manhas atravessa o rio e visita a aldeia em busca de dois "F's": Food and Female.
Trata-se de um elefante selvagem que vive no Parque e vem a Sauraha atraido pelas elefantes femea domesticas e pela variedade de comida. Mais tarde, verifico os estragos feitos na parede de uma casa que continha reservas de arroz.
A visita e curta e assumida pelos locais com uma habituada naturalidade. Vemo-lo cruzar o rio de volta ao Parque e retomamos o pequeno-almoco.
Terminada a refeicao, Man apresenta-me os dois guias que me acompanharao: Krishna e Tika.
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Avisados da presenca de um rinoceronte caminhanmos ao longo da margem de Sauraha.
Este enorme animal com marcas pre-historicas encontra-se num banco em meio do rio. Podemos aprecia-lo tao demoradamente como pretendemos e so depois cruzar o rio numa longa e estreita canoa construida numa so peca.
O tronco esculpido de uma arvore com madeira leve e macia e a materia destas embarcacoes que, pela fraca resistencia a favor do peso, tem uma vida util de apenas 5 anos.
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Ao longo de todo um dia de caminhada, cerca de 19Km atraves de diferentes tipos de vegetacao: elephant grass (erva muito alta; pode atingir os 7 metros) e variantes de floresta, observamos mais um rinoceronte, por tempo muito breve, no interior de um lago, notamos a presenca de um urso, vemos crocodilo e meio (deste ultimo, semi-mergulhado, so se via a cabeca e parte da cauda) e pegadas frescas de tigre e veados.
A maior interacao com animais regista-se nas sanguesugas. Frequentemente temos que retira-las das pernas. Quando se demoram, o fio de sangue leva muito mais tempo a ser estancado. Tika ensina-me qual o tipo de erva que, macerada, se pode aplicar para interromper o fluxo sanguineo. Parece que resulta.
Ja de noite, assustamo-nos tanto como um grupo de veados no interior da floresta. O seu movimento subito toma-nos de surpresa.
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Cruzamos o rio em outra canoa e acedemos a aldeia de Katgai. Passamos a noite num lodge semelhante aquele, de Sauraha, em que repousa a minha bicicleta.
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Retomamos a caminhada pela manha. O solo da floresta esta coberto de vegetacao menos densa que a do dia anterior. Progredimos de forma mais facil.
A certa altura temos que cruzar um rio a nado.
Depois de passarmos em seguranca todos os objectos (a camara fotografica em particular...) volto a mergulhar, gozando a frescura da agua... ate Krishna me dizer:
-Sir, you may come. In fact, there is some danger of crocodiles in this area.
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Mimetismo total.


- "I think it is deadly poisonous".
Diz-me Krishna quando lhe mostro esta imagem.
(captada no dia entre Pokhara e Mugling)




Pegada de tigre.



Rio Rapti




Passagem de rinoceronte.




Krishna.





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Estamos de regresso a Sauraha as 14:00. Mesmo a tempo de comer um bife de Yak no restaurante "Jungle View".
Nao tinha visto muitos animais mas a possibilidade de ter caminhado ao longo de um ambiente totalmente novo e em muito boa companhia compensou largamente.
Krishna e Tika sao duas pessoas genuinas. Revelam ter muito prazer em ser guias da natureza. Muito competentes e profissionais, apresentam um interesse verdadeiro em que o cliente que acompanham possa encontrar satisfacao.
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Decido ficar mais um dia em Sauraha.
Passeio em bicicleta pelas redondezas, visitando pequenas comunidades de vida tradicional. Por vezes, as criancas tambem me guiam, expondo e explicando, a sua maneira, o porque de certos objectos, levando-me aos cantos que melhor conhecem...
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Tambem as criancas se fascinam com Jack London.
(tem na capa uma cena de luta entre um homem e um urso...)





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Sauraha e mais um lugar que abandono com vontade de me ter demorado mais tempo.
Ha que fazer caminho. Estou a 210Km de Kathmandu.
Posso descrever o dia como: "antes e depois de Hetauda". Ate esta cidade circulo sempre em terreno plano.
A partir de Hetauda o ritmo e, forcosamente, muito mais lento. Nos proximos 50Km irei sempre ganhando altitude.
Guardo montanha para o dia seguinte, dormindo junto a estrada, no tal alpendre onde me senti tao a gosto.
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Tadi Bazaar. (depois de Sauraha)




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A 6 de Outubro chego a Kathmandu.
24Km antes, encontro de novo a Prithvi Highway, em Naubise. Vencendo 10Km de subida e-me oferecida a primeira visao do vale de Kathmandu. Ao lusco-fusco vejo pela primeira vez os contornos da cidade tao desejada.
Atravesso as povoacoes que compoem os seus suburbios a medida que a noite cai.
Mais um fascinante e desafiador lugar, pujante de vida.
A confianca esta claramente instalada no guiador da bicicleta e, perguntando indicacoes (sempre correctas e fornecidas com simpatia) consigo chegar a Thamel.
Esta e a zona de Kathmandu tida como referencia para alojamento economico e variedade de restaurantes.
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Antes de mais, quero comer.
Encosto a minha companheira ao gradeamento verde do Yak Cafe e o animal que da nome ao estabelecimento e-me apresentado na forma de um fumegante bife.
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Apos as questoes logisticas do regresso a casa e agora tempo de apreciar a cidade continuando a receber as boas surpresas desta viagem.
Voltarei a escrever, aqui ou ja em Portugal, dando conta dos dias que se seguem.
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Um abraco onde caibam todos, com a gratidao habitual pelas visitas e seu registo.

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P.S.: Em Sauraha conheci o Hari Bahadur Pariyar.
Hari era costureiro em Kathmandu.
A 5 de Junho de 2006, sofre um acidente no autocarro que o transportava entre a capital e Dhulikhel. Como consequencia e-lhe amputada a perna direita. Para custear as despesas hospitalares tem que vender a maquina de costura e outro equipamento. Deixa assim de ter o principal utensilio que lhe permite trazer rendimentos para si e para a sua familia (3 filhos).
Uma maquina de costura custa, no Nepal, cerca de 7500 rupias.
Dando uso (e aqui prestando contas) ainda ao credito das generosas doacoes dos amigos de Radio Tamarugo consegui entregar 6800 rupias (cerca de 75 euros). Nao pude dar mais pois nao tinha disponivel. Sauraha tem possibilidades de cambio mas nao tem ATM e fiquei com o imprescindivel para os dois dias de viagem ate Kathmandu.
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Hari Bahadur Pariyar

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Na Servia encontrei Philippe Jacq.
Caminhava desde o Monte Sinai, no Egipto, ate Santiago de Compostela, numa marcha pela paz. http://www.chacunsaroute.com/
Antes de Kathmandu encontro este casal de tibetanos que se dirige a Bodghaya (lugar, na India, onde Buda meditou e encontrou a revelacao que definiria a sua doutrina).
Caminham tambem numa marcha pela paz.
Nesta peculiar forma de peregrinacao, cada passo e acompanhado de uma prostracao total.

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...mais um para a lista. (em Pokhara)